Ichiro

Na última segunda-feira, de uma hora pra outra, Ichiro Suzuki foi trocado do Seattle Mariners para o New York Yankees. Um dos maiores ícones da história da franquia do noroeste foi para a organização mais vencedora dentre todos os esportes americanos. Todo mundo foi pego de surpresa e muitos ficaram chocados. Eu fui um deles.

Nos dois anos em que escrevo esse blog, sempre tentei ser o mais imparcial possível. Apesar de ser apenas um blogueiro, busco manter o compromisso de ser neutro, característicos de jornalistas e repórteres. Entretanto, como qualquer outro torcedor, tenho um time favorito e jogadores pelos quais simpatizo. O mesmo vale para o outro lado da moeda. Existem times pelos quais tenho antipatia e jogadores com os quais eu não vou com a cara.

Mais do que imparcial, sempre busquei ser impessoal. Criei o blog para falar de beisebol e não de mim mesmo. Porém, escrevo esse artigo como Guilherme, torcedor e apaixonado pelo esporte, e não como Blog do Beisebol, mais um dentre tantos blogs na rede. Vou me dar o direito de abrir essa exceção, porque o Ichiro sempre foi uma exceção no jogo. Talvez essa seja uma forma de homenageá-lo. Huh, quem sou eu para homenageá-lo…

Julho de 2007, férias. Numa noite sem ter o que fazer, ligo a TV e coloco na ESPN. Vejo que estão transmitindo um tal de All-Star Game e, como estou entediado, fico assistindo. Logo entendo que aquela era uma partida amistosa entre os melhores da liga. Apesar de já saber boa parte das regras (quando mais jovem tinha um jogo de beisebol no videogame) não tinha a noção de quem eram aqueles caras. Bom, continuo assistindo ao confronto e, em determinado momento, um japonês entra em cena. Ele consegue uma rebatida forte. A bola bate num dos muros e toma outra trajetória. Sem hesitar um minuto sequer, ele percorre todas as bases. Como nunca tinha conseguido fazer aquilo no videogame, concluo que era algo raro de acontecer. O comentarista informa que jamais na história dos All-Star Games um jogador tinha batido um inside-the-park home run. Esse havia sido o primeiro. Percebo o quão incrível aquela jogada foi. Percebo o quão incrível aquele cara era.

Daí para frente tomei gosto pelo jogo. Chegou, então, o momento de escolher um time para torcer. A primeira coisa que me veio em mente foi “onde o Ichiro joga?”. A resposta para esse pergunta também foi a resposta para a minha indecisão. Não virei fã do Ichiro porque ele jogava nos Mariners. Virei fã dos Mariners porque o Ichiro jogava lá.

Comecei a acompanhar o time mais de perto. Me atualizava diariamente sobre os resultados e notícias em Seattle. Virou parte de uma rotina diária, que se faz presente até hoje. Em um time sem grandes perspectivas, com muito mais derrotas do que vitórias, logo aprendi que a simples presença do Ichiro em campo já fazia valer a pena assistir às partidas. Ele era tão diferente, tão único, que sabia que podia esperar um lance mágico a qualquer momento.

Em 2010 veio a realização pessoal. Tive a oportunidade de ir para Los Angeles e consegui um ingresso para um jogo entre Angels e Mariners. Foi um sonho que se tornou realidade. Entrar no estádio e ver o Ichiro de perto… aquilo era surreal! Me lembro que muitos torcedores com a camisa dos Angels desciam até a parte mais baixa das cadeiras, só para tirar dele de perto, enquanto eu pensva “huh podem tirar quantas fotos quiserem, ele sempre sera um Mariner“. Bom, parece que eu estava enganado…

Quando vi a notícia segunda à noite, custei a acreditar que fosse real. Ichiro, depois de mais de 11 anos, trocado? E, ainda mais, para os Yankees? Naquele momento, fiquei muito mais surpreso do que triste. A ficha não tinha caído para valer.

Assisti um trecho da coletiva de imprensa e, a partir dali, comecei a digerir o que havia acontecido. Ouvir suas palavras para a organização e para os torcedores, e ver o quão emocionado ele estava foram golpes difíceis de suportar.

Horas mais tarde, lá estava ele, entrando no Safeco Field com o uniforme Yankee. Esse foi, provavelmente, o momento de maior estranheza. Ele fez exatamente os mesmos rituais de sempre durante o aquecimento. Os mesmos alongamentos. Enfim, era o Ichiro de sempre, com roupas (e número nas costas) diferentes.

O inacreditável só se tornou real pra mim na terceira entrada. Ichiro dirigia-se pela primeira vez ao batter box por outro time que não os Mariners. Por alguns segundos fiquei sem reação, para, em seguida, perceber que meus olhos se encheram de lágrimas. Algumas insistiram em escorrer. Parei de acompanhar o jogo. Já era relativamente tarde e estava triste. Não havia motivo para continuar assistindo…

O que quero expressar aqui é a admiração que tenho por esse cara. Não é exagero dizer que ele teve um impacto importante em minha vida. Eu me apaixonei por um esporte novo por causa dele. Eu criei esse blog por causa dele. Eu até melhorei meu inglês, só para acompanhar notícias sobre ele.

Ichiro não é só um jogador profissional de beisebol para mim. Ele não é só um ídolo. Ele é mais do que isso. É um verdadeiro herói. Assim como uma criança, que vê seu personagem de desenho animado favorito na TV e sonha em ser como ele, eu vejo Ichiro e busco ao máximo me inspirar nele, ser um vencedor como ele.

O que resta agora é desejar toda a sorte e sucesso do mundo para ele nessa nova empreitada. Vai lá e conquista esse título! Por você e por todos os seus fãs ao redor do mundo. Ninguém merece um anel mais do que você!

Obrigado Ichiro, por tudo o que você fez pelos Mariners durante mais de uma década. Obrigado Ichiro, por tudo o que você representou e continuará representando em minha vida. Obrigado Ichiro, por simplesmente ser você.

Autor do post

Blog do Beisebol (Guilherme Shiniti)


8 Comentários

  • Parabéns cara. Muito boa a matéria. Do jeito que a cada dia mais o esporte é visto como um mercado e os times como empresas, visões mais humanas como essas são sempre bem vindas!

  • Compartilho da sua opinião. Também achei que o Ichiro se aposentaria no Mariners. Mas só nos resta desejar muita sorte para ele e que dê muitas alegrias a seus torcedores.

  • Gostei da matéria brother Mariner , isso é paixão pelo esporte . Confesso que senti algo parecido e a decepção foi a mesma . O time era outro , o esporte era outro , mas os sentimentos eram os mesmos .

    • Valeu Dan. Realmente, é bem difícil ver um ídolo sair do time que gostamos. Ou então se aposentar, mas nesse caso deve ser menos pior porque o cara para de jogar com a camisa da equipe que ficou consagrado.

      Mas e aí. Qual foi o jogador e o time?

      Abraço!

  • Meu caso guarda algumas similitudes… O que me apresentou ao beisebol foram os animes (sim, eu sou o que muita gente convencionou chamar de otaku). Só de assistir a alguns, eu fui aprendendo as regras (e absorvendo um pesado sotaque japonês ao pronunciar os termos em inglês, o qual eu tenho orgulho de reproduzir). Eu – que já era viciado em animes – criei um “subvício” peculiar: animes sobre beisebol. Sempre acho muito estranho quando não estou acompanhando nenhum anime do tipo. É quase como se faltasse algo em minha rotina.

    Enfim, criei um enorme carinho pelo esporte, inequivocamente meu favorito. A consequência natural era eu começar a acompanhar os campeonatos reais, especialmente a MLB, pois infelizmente eu ainda não domino a língua japonesa, o que torna a NPB pouco acessível. Qual a primeiríssima pergunta que eu me fiz? Bastante óbvia, eu diria: Existem jogadores japoneses na MLB? Qual o mais famoso? Qual o mais legal? Qual o mais habilidoso? Etc…

    Daí o processo de eu virar fã do Ichiro e torcedor do Mariners foi praticamente idêntico (primeiro virei fã “número 1” do Ichiro, para – só depois – virar torcedor do Mariners). Minha consternação com a ida dele para o Yankees foi parecida. Continuo fã incondicional dele, é claro, afinal troca de time é algo que acontece……… imagina se ele nunca tivesse saído do Orix Buffaloes (da NPB)? Talvez nunca tivéssemos conhecido-o… Torço pelo sucesso crescente dele e que a nova casa o ajude nisso.

    Devo dizer, porém, que estou um pouco perdido com relação a qual time torcer, pois – confesso – os Yankkes sempre estiveram dentre as minhas últimas opções… Acho que peguei antipatia deles ao longo dos anos… talvez por osmose, quem sabe? De qualquer forma, terei que superar isso!

    Descobri seu blog hoje e não podia deixar de comentar nesse post em específico… E, sim, parabéns pelo blog!!! Manter um é muito trabalhoso (falo por experiência própria, pois eu tinha um sobre animes que prosperava, contudo acabei abandonando-o por causa do trabalhão), seu empenho aqui é admirável!! Ganhasse mais um leitor assíduo, embora eu não seja do tipo que comente com frequência… peço desculpas. Ganbatte!

    • Olá Patrick!

      Muito obrigado pelo apoio e por compartilhar sua história conosco. Quando era mais jovem também gostava de acompanhar animes sobre esportes (no meu caso, eram sobre tênis e futebol). E realmente tem sido bastante difícil de manter o blog no ar, mas vamos em frente!

      Grande abraço.

  • Guilherme, acabei encontrando seu blog por acaso… procurando por novidades sobre esse nosso grande esportista.
    Tive a oportunidade de morar algum tempo no Japão e, o beisebol lá é o que representa o futebol por aqui… paixão nacional!!! Já tinha uma certa simpatia pelo esporte, mas após assistir tantos jogos, a simpatia virou também uma paixão.
    Nesse tempo, vi muitos bons jogadores… estrangeiros, inclusive, que atuavam na liga japonesa. Mas, alguns sempre me chamaram a atenção… dentre eles, estava Ichiro. Não só pelo talento, mas também pelo estilo.
    Quando anunciaram a ida dele para os EUA, muitos acharam que seria mais um japonês que fazia muito sucesso no Japão, mas seria mais um coadjuvante nos EUA. Para a nossa alegria, ele foi conquistando seu espaço, mostrando seu dom e ganhando a confiança de todos…
    Também fiquei muito surpreso quando da sua troca de equipe, mas não importa pra qual time ele irá jogar… sou fã do cara!!! E irei, sempre, torcer pelo Ichiro Esporte Clube… rsrsrsr

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